Emília Daniel Leitão (Ago-Set 2008)
Como mudou o Chiado desde a primeira vez que o vi, em 1970! Nessa altura, caminhava lentamente para a modernidade. Era já um centro cosmopolita, um bairro de contrastes, com muito movimento. Gostava de ficar no Café Chiado a observar o vaivém das pessoas que passavam apressadas, bem arranjadas. Ia ao Tatá Rodrigues para comprar tecidos, à Casa Batalha para os botões, ao Alexandre e ao Jerónimo Martins para as coisas de casa e invariavelmente à Livraria Bertrand.
Hoje, subi a rua do Carmo. Para trás ficou o ruído dos autocarros, dos automóveis e gentes apressadas do Rossio. Fui olhando à minha volta com vontade de ver. Sapatarias sucediam-se a casas de moda. Ao meu lado direito um arco entre os prédios lembrava os bairros árabes. Prédios com fachadas trabalhadas mostravam o antigo encanto arquitectónico. No cimo da rua, parei e voltei-me. Lá está a ponte do elevador de Santa Justa, de Eiffel, sobre os prédios, qual Ponte dos Suspiros sobre o canal.
Mesmo ao meu lado, estava uma mulher de cabelos brancos, sentada num degrau que cantava um fado, acompanhada de um pequeno rádio, dando um cunho popular àquele espaço.
À porta de uma loja dirigi-me à empregada:
- Posso fazer-lhe uma pergunta? O que significa para si o Chiado?
- O local ideal para trabalhar. O local ideal para me divertir.
Ri-me e continuei pela rua Garrett. Um cheiro a café vinha de uma loja à minha esquerda, que me fez lembrar que tinha de ir almoçar. Mas onde? Havia tanto por onde escolher. Do outro lado da rua, um cartaz anunciava pratos tradicionais portugueses, outro, pratos rápidos, para quem não pode ou não quer deixar o escritório por muito tempo.
Eu preferi ir ao “Amo-te Chiado”. Na mesa ao meu lado estava o Pedro. Perguntei-lhe:
- Se tivesse de promover o Chiado, perante um visitante como o aliciava?
- Diria: é um bairro, recheado de tradição, onde se respira cultura, de Camões, a Eça e a Pessoa. É um bairro de tertúlias, divertido, onde se começou a respirar liberdade, no Carmo.
Achei que sim, que era uma bonita frase. Agradeci e fiz o meu pedido: bacalhau à Braz, uma salada mista de verduras e sangria. Fui mastigando as tostas com paté de atum e manteiga de ervas e azeitonas temperadas de azeite e alho, enquanto esperava o prato. Para finalizar uma rodela de ananás com hortelã. Tomaria o café na Brasileira.
Voltei à Rua Garrett e subi-a. O engraxador de sapatos, de seu nome Fernando Lima, com uma fatiota em azul-escuro, diz-me que trabalha no Chiado há mais de 20 anos.
- Para mim o Chiado é uma das mais bonitas zonas históricas de Lisboa e não me mudaria nunca para outro bairro.
Só há uma maneira de conhecermos bem uma cidade: calcorreando as suas ruas, deambulando pelas vielas, para sentir o espírito e a magia dos seus bairros. Por isso continuei O caminhar restitui-nos, aqui, os sons das ruas, os gritos das gaivotas, que do Tejo vêm apreciar a algazarra do momento, os cheiros que pairam no ar, o ritmo do tráfego. Percebemos até as rotinas dos habitantes.
Então perguntei a mim própria: “O que falta ao Chiado? E respondi: “Falta-lhe verde”. Há poucas árvores. Mas à minha esquerda uma florista vem colmatar um pouco esta falta. Traz algum verde e mais colorido com os seus vasos dispersos pelo passeio.
Sentei-me na Brasileira e dediquei-me ao ritual do café. Em frente a saída do metro. O movimento das pessoas lembrou-me um formigueiro.
No Chiado, à tarde, o bulício é ainda maior que de manhã. Lembrei-me de ter lido, algures, que mais de 200 000 pessoas atravessavam todos os dias a pé ou de carro, as suas principais artérias. E ali estavam umas boas centenas passando. Jovens em calções, mini saias, saias compridas, geens, com piercings, brincos, tatuagens, correntes. Cabelos curtos, compridos, espetados, escorridos, tranças, rastas. Senhoras em tallieur, salto alto, homens com fato e gravata. Ouvia-se francês, inglês, espanhol, brasileiro… Todos se cruzavam num jogo cosmopolita que atraía pela miscelânea e diversidade. Contrastes onde todos coabitam harmoniosamente, onde já não se dá atenção às disparidades, às divergências.
Num mundo de globalização e uniformização geral, sabem-nos bem as diferenças.
Imaginei-me no princípio do século passado, neste mesmo local. Damas de vestidos compridos e sombrinhas, meninas acompanhadas das chapperons e cavalheiros de cartola para um passeio no Chiado.
Levantei-me. Deixei Fernando Pessoa, na companhia dos imensos turistas que se vinham sentar na cadeira ao seu lado, com um sorriso, à espera do clic da máquina fotográfica.
Depois da sedução das lojas de griffe ia embrenhar-me no encanto do Chiado monumental. Sobre o poeta António Ribeiro esvoaçavam pombos e um músico entretinha-se lançando para o ar notas do seu trompete
Mesmo ali ao lado, erguem-se duas igrejas barrocas, no meio dos prédios: a italiana, Igreja do Loreto e a Igreja de Nossa Senhora da Encarnação.
Entrei numa delas. A frescura do interior contrastava com o calor do Verão que estava no auge. Dei uma volta para apreciar bem o todo, os diferentes altares. As pinturas do tecto e paredes caracterizam bem o exagero dos adornos do estilo barroco. O cheiro a estearina já não é tão intenso. Tremeluzem agora velas eléctricas, consequências das preocupações com o ambiente e a preservação das pinturas.
À saída, uma brasileira abordou-me:
- Me diga, por favor, tem por aí, um guia, um bom livro, com dicas sobre este bairro? Queria conhecer melhor esta zona, que me disseram ser a que melhor representa a vida dos lisboetas.
Indiquei-lhe o “Convida”, um manual bilingue, onde poderia encontrar tudo, desde restaurantes a lojas de marca, cabeleireiros e teatros.
Um som estridente fez-me virar. Um eléctrico pachorrento acabava de parar no sinal. Figuras bem típicas desta cidade.
Continuei o meu trajecto, em busca de mais monumentos. Passei pela estátua de Camões, desci a rua do Alecrim. Entrei num alfarrabista onde comprei um livro com fotos antigas de Moçambique.
Perto da estátua de Eça de Queirós, fui apreciar umas antiguidades. Peças escondendo histórias de famílias. Quem se teria sentado naquela cadeira, quem teria estado naquela moldura antiga, quem teria escrito sobre aquela escrivaninha do séc. XVII, quem teria usado aquela pena.
Embrenhei-me por umas ruelas, desci e subi escadinhas e fui ter à frente de um palacete de traça romântica, onde está instalado o Grémio Literário, centro de convívio e promoção da cultura. Frequentado por intelectuais, artistas, escritores, políticos e amantes das artes que ali se cruzavam diariamente. Estava um jovem por perto. Perguntei-lhe o que achava do Chiado. Não me levou muito a sério e respondeu:
- É a paisagem do mundo. Aqui tudo gira sem parar.
As sombras começavam a alongar-se pelas ruas, indiciando o fim da tarde. Sentei-me na Cafetaria do Museu do Chiado, um espaço amplo e arejado.
Segui em direcção ao Quartel do Carmo, célebre pela sua intervenção na rendição do Estado Novo. Vi as ruínas do Carmo e a bonita fonte ali perto.
Telefonei a uma amiga para vir jantar comigo à Cervejaria da Trindade.
Consolei-me a ver os bonitos azulejos amarelos, azuis e brancos, do séc. XVIII, com figuras que lembravam símbolos da maçonaria.
Quando saímos o cenário era outro. A noite estava a despertar. As ruas fervilhavam com pessoas em roupas mais elegantes e mais animadas. Um músico passou com uma guitarra e outro com um clarinete.
A esta hora começavam a encher-se os bares, as discotecas, as casas de fado e todos os locais de tertúlias nocturnas.
Ficara fascinada com o bairro. Muito dinâmico, com actividades em todos os sectores da vida social, económica, política e cultural.
Tinha de lá voltar outra vez. Muita coisa ficara por ver.
Aqui a tradição alia-se à inovação, para manter bem viva a magia e o espírito do Chiado, onde o antigo e a modernidade se caldeiam. É um bairro que caminha orgulhosamente, rumo ao futuro.
Olá!
Só hoje vim ver o nosso blog que está muito bem estruturado. Parabéns ao João!
Temos que começar a alimentá-lo mais… Força pessoal! Um Xi. Milocas