Patrícia M. Loureiro e Luísa Barata (Ago 2008)
Mais uma noite de copos no Bairro Alto. Jantamos na Primavera, onde a cozinha do Sr. Manuel, aqui radicado desde sempre, faz inveja a qualquer dona de casa alentejana que se preze. Seguimos para o Bartis, donde saímos depois de uma caipirinha e muito jazz. Continuamos a vaguear pelas ruas escuras do bairro. Cada vez mais pessoas enchem as vielas mal iluminadas, de copos na mão, sorriso na boca e muita conversa. A música da sucessão dos pequenos bares mal se ouve entre as vozes portuguesas e estrangeiras que se misturam.
Fomos espreitar à janela bem conhecida do ZDB, em busca de uma das muitas revelações musicais alternativas que aí acontecem. Desta feita, descobrimos uma harpista, cujo cartaz de parede anunciava como a musa inspiradora do Anthony & The Johnsons.
Subimos mais um pouco e entramos no café onde combinamos encontrar-nos com Chris, galês empedernido, apaixonado por Lisboa. “Faz-me lembrar uma capital das colónias da América Central. São as Palmeiras, acho eu”, diz ele.
Lá dentro, quando o encontramos, já leva um grande avanço nas imperiais. Este é um ritual que cumpre religiosamente todas as semanas, desde que veio viver para Lisboa. Até já viveu no bairro, que só trocou por amor de uma médica espanhola, cujas noites de urgência não se compatibilizam com a agitação local. Agora vive no Saldanha, mas não consegue manter-se longe daqui por muito tempo. “Sentes-te saudades de Gales?”, perguntamos. Chris sorri por um momento, pensativo. “Não. Mas quando passo um fim de semana fora, sinto saudades de Lisboa”.
Pede mais uma rodada e apresenta-nos o seu amigo. António é pescador e vive aqui no bairro desde que nasceu, há mais de 50 anos.
É ele que nos conta um pouco da transformação que o bairro sofreu nos últimos anos, passando de zona degradada ao centro alternativo da capital.
No fundo, conta António, muita coisa não mudou. As manhãs continuam a ser as mesmas. As padarias e mercearias e o mercado continuam a vender os seus produtos aos locais, aos quais praticamente conhecem pelo nome. À tarde começam as novas lojas a abrir as portas, preguiçosamente entre a uma e as quatro. Para esses lojistas não há pressas… até porque os principais clientes vêm lá mais para o final da tarde e pela noite.
Convencidos do encanto do bairro pela noite, decidimos voltar na tarde seguinte.
Desde há alguns anos para cá podemos encontrar quase de tudo no bairro, principalmente as novas tendências, roupa retro dos anos 60 – 70 e 80, antigos discos, marcas alternativas como Volcom ou Skunk, uma sex shop divertida e luminosa, casas de chá, mercearias gourmet, cabeleireiros avant-garde, etc.
A não perder é certamente um corte de cabelo no WIP (Work in Progress), mescla de internet café e cabeleireiro, onde o Peter ou a Sabine, prometem uma transformação total, mesmo ali a meio do elevador da Bica, com vista para o rio.
Para relaxar das compras, também se recomenda uma paragem na Cultura do Chá, na Rua das Salgadeiras. Nas paredes há motivos tipicamente portugueses e às mesas chegam chás e infusões, tartes caseiras e scones apetitosos, reconfortantes após caminhar pelas subidas e descidas do bairro.
E para comprar mimos doces e salgados, nada melhor que a mercearia da Atalaia, na rua com o mesmo nome.
E, para mais tarde recordar, com o feeling surreal do Bairro, basta passar pela embaixada lomográfica e comprar uma lomo, quanto mais louca melhor, e sair pela rua disparando, mas sem olhar pela objectiva. Assim mandam as regras da prática, segundo nos conta Maria João. Esta castiça embaixatriz lomográfica apaixonou-se por este tipo de fotografia e no bairro encontrou o lugar perfeito para a disseminar.
Assim é o bairro de hoje, onde se encontram as novas tendências misturadas com mercearias tradicionais, gente estrangeira e jovem, hippie-chic, misturada com os antigos moradores, alfacinhas de gema, velhos como as pedras da calçada.
É esta amálgama de gente e de estilos que atraiu Ana, uma jovem portuense que veio morar para Lisboa há 2 anos e que cedo descobriu que era no bairro que queria estar. “O bairro é fantástico, tem a dose certa de um certo desencanto e degradação, tradição e todas as ondas alternativas que se possa imaginar desde punk a hippie…”. Ana vive numa casa antiga, sem elevador, numas águas furtadas e soalho de madeira, desses que rangem. Apesar das janelas fechadas, ouve-se o ruído das gentes e da música que se prolonga pela madrugada fora, todas as noites da semana. O ruído não a incomoda: “Até me embala!”, ri-se Ana.
De facto, nada como andar no bairro para se perceber o que é uma cidade cosmopolita. Aqui há um espaço para todos.
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