TXT. Muy pequeño, molto stronzi, and reasonably unimaginative Bericht über O CHIADO pour les nulls*

18 09 2008

João M. Nogueira (Ago-Set 2008)

Trinta e seis parágrafos, mil oitocentas e oitenta e seis palavras e oito mil novecentos e setenta caracteres, espaços não incluídos. Pensava eu precisar de 5.000 ou 10.000 caracteres para falar do Chiado, uma das zonas mais emblemáticas de Lisboa, mas o Chiado – já devia suspeitar – não se presta a números redondos e contas certas.

Sobre o Chiado abundam lugares comuns, mas este lugar no meio da cidade está longe de ser um lugar comum.


1. Chiado, Andrea, Galões

É isso que tento explicar, a custo, a Andrea. Andrea é 1,67m de bávara, com 3,5 dioptrias magiares e 12/7 de tensão arterial checa. Isto é, nasceu na Bavária, é filha de pai húngaro e de mãe saxónica e, por ora, vive em Praga, República Checa. Como se não bastasse, Andrea é – além de tudo isso – linguista. De passagem por Lisboa pediu-me para lhe mostrar, com aspas, a cidade. E eu mostrei-lhe a cidade, com aspas. E o Chiado. Na verdade, mostrei-lhe um certo Chiado. Sabem, aquele Chiado que alguém como eu mostra a alguém como ela. Uma visita ao Chiado só para ti, Andrea: um Chiado para as gentes das linguísticas, das etnografias, das histórias.

A tarde está a chegar ao fim e Andrea e eu estamos sentados entre galões e uma fatia de Sachertorte no Kaffeehaus, o novo café austríaco do Chiado. Ela faz perguntas, eu esboço respostas. Pergunta-me se Lisboa, se Portugal, cabem no Chiado. Digo-lhe que sim e que não. Não é fácil dizer-lhe que hoje o Chiado é mais parecido com ela do que um retrato dos lisboetas que poucas horas antes andámos à procura pelas ruas desta zona. Entretidos entre galões, a conversa faz o relógio recuar algumas horas até ao nosso fim de tarde, de cá para lá e daqui para ali.

2. Ruas, Praças, Largos

“Bolas, preciso de um ângulo!” – exclamo. “O que queres dizer?” – pergunta-me Andrea. Se ela está à procura de lisboetas no Chiado, eu estou à procura de um ponto de vista, de um ângulo. Do meu ângulo. Ela sorri. Falo-lhe dos clássicos, de Paul Theroux e de Bruce Chatwin; dos livros de Bill Bryson e de Colin Thubron; das escritas de viagens e da fotografia de viagens. Falo-lhe de planisférios pessoais e de viagens sentimentais. Andrea diz que o ângulo se tem – se atinge – quando se chega e não quando se parte. Envergonhado, acedo… e então partimos à procura do Chiado, de lisboetas e de ângulos (não necessariamente por esta ordem).

Passeamos pela Rua do Carmo, pela Rua Nova do Almada e pela Rua Garrett. Andrea diz que o que vê lhe parecem Straßen, Alleen e Plätze. Mas não: são ruas, avenidas e praças. Seguimos pela Anchieta, pela Serpa Pinto, pela António Maria Cardoso, subimos o Alecrim e a Calçada do Sacramento, caímos no Carmo e na Trindade, descemos a Misericórdia. Acabamos ao largo dos largos – primeiro o Camões, depois o Chiado.
Pelo caminho passamos por lugares sagrados: São Roque, Nossa Senhora do Loreto, Nossa Senhora da Encarnação, Basílica dos Mártires e Sacramento.

Passamos também por espaços sagrados que já não o são: o Convento de São Francisco da Cidade, onde é hoje a Faculdade de Belas Artes de Lisboa; o Convento da Boa Hora, onde é hoje o Tribunal. O Chiado tem tudo: lojas e cafés e igrejas e lojas e serviços e bancos e lojas. O Chiado tem até um hospital da ordem terceira que é um hospital de terceira ordem.

Isto promete, não promete, Andrea?

3. História, Estórias, Magia

O Chiado dos dias que correm é uma janela para Lisboa, mas em tempos já foi porta. Nos tempos medievais era no topo da Rua das Portas de Santa Catarina, hoje Rua Garrett, que se abria a principal porta da muralha fernandina para a cidade. Daqui vêm-se hoje as colinas da cidade dos miradouros de São Pedro de Alcântara e de Santa Catarina. Daqui sobem-se as colinas da cidade nos elevadores de Sta.Justa, da Glória, da Bica. Mas ao Chiado, explico-lhe, ninguém sabe bem desenhar as fronteiras. Digo-lhe que essas coisas não se sabem ao certo. O coração do Chiado será, talvez, a mais pequena freguesia de Lisboa: os Mártires. Mas há também um pouco da Encarnação, do Sacramento, de São Paulo e de Santa Catarina. Há ainda um não-lugar que faz parte do Chiado e que nele entra e dele sai, em movimento pendular, ao longo do dia: o Eléctrico 28. O Chiado está cheio de lugares e não-lugares.

Para além do 28, o chiado está cheio de números: 26 (número de arruamentos da freguesia do Sacramento); 85,2 (percentagem de casas construída até 1970 nas freguesias dos Mártires, Sacramento, Encarnação, São Paulo e Sta.Catarina); 341 (número de habitantes da freguesia dos Mártires); 1780 (data da primeira experiência de iluminação urbana em Portugal com lamparinas de azeite); 1925 (data da colocação da estátua do poeta Chiado de Costa Mota); 3552,1 (densidade – habitantes por km² – da freguesia dos Mártires); 4081 (número de habitantes da freguesia de Sta. Catarina); 19 526,3 (densidade habitacional da freguesia de Sta. Catarina).

Felicitas Julia Olissipo (ou apenas Olissipo) e Al-Ushbuna, era esse nome de Lisboa ao tempo de romanos e de árabes, respectivamente. Nesses tempos o Chiado não era mais do que algumas vilas romanas ou terrenos agrícolas com vista sobre o Tejo. Depois desses tempos o Chiado foi muitas outras coisas. Aproveito para lhe falar de história e de datas: de 1147, quando aqui acamparam os cruzados aquando do Cerco de Lisboa; de 1217, quando começou a construção do edifício mais importante da cidade durante a Idade Média, o Convento de S.Francisco; de 1567, quando o Chiado foi chamado de Chiado; de 1755, quando o convento do Carmo se aguentou; de 1974, quando o quartel do Carmo não resistiu; e de 1988, quando o Chiado ardeu e deixou de ser o velho Chiado. Falo-lhe de tudo um pouco e de uma série de nadas, mas coisa pouca.

Mas o Chiado não é só História, com “H” maiúsculo: é também histórias com “h” minúsculo. São as histórias da vida de todos os dias das pessoas que aqui vivem, que cá trabalham, que pelo Chiado passam. E também as suas estórias. Falo-lhe da geografia humana, social e urbanística destes espaços. Falo-lhe das curiosidades antropológicas destes lugares. Do inusitado facto de grande parte da população mais antiga desta zona ser originária das regiões Norte e Centro do país (sobretudo, as chamadas “gentes de borda-d’água”, das zonas litorais como a Póvoa de Varzim ou Vila do Conde). Falo-lhe da gentrificação: do novo Chiado dos jovens trota-mundos, dos ateliês e estúdios. Andrea sorri.

Falo-lhe da poesia do Chiado. D’O Sentimento dum Ocidental, de Cesário Verde, de Fernando Pessoa. Falo-lhe também de António Ribeiro, o Chiado.

Andrea questiona-me se o Chiado é um lugar mágico. “Hoje até é, Andrea” – digo enquanto nos detemos a ver Ian Saville, mágico inglês a actuar no “LISBOAmágica – street magic world festival”. Por momentos, o Largo Camões enche-se de turistas e transforma-se no largo dos camones, ironizo. Logo depois, seguem-se o americano Christopher Howell e os argentinos Brando y Silvana. Estes mágicos de todo o mundo estão de passagem, mas o Chiado de hoje também é feito de gente assim. De gente de todo o mundo, entenda-se, não de ilusionistas.

Será que ainda falta muito para encontrar um ângulo?

4. Gentes, Línguas, Memórias

Falar nas gentes do Chiado é falar de gentes do mundo. Na verdade, o Chiado é um mundo… ou mais. Artistas, pedintes, traseuntes, turistas, funcionários, de várias origens e de várias nações. E até lhe digo que aqui pertinho, há Tóquio, há Jamaica, há Hamburgo, já houve Texas. Há uma loja que se chama Paris em Lisboa, mas o Chiado é mais do que isso: é Londres, é Roma, é Berlim, é Amsterdão. E é também o Alentejo e as Beiras e o Minho.

No Chiado cabe um universo de línguas: pelas ruas ouvimos dizer mi piace viaggare, je ne crois pas, por supuesto que si, Ich bin müde, tyvärr jag talar bara litet svenska, jeg elsker dig. No Chiado cabe um mundo de corpos: gentes com disposições corporais ibéricas, pessoas com proxémias escandinavas, grupos com gestos gauleses e itálicos. Pelo caminho, vemos aquele misterioso senhor asiático que toca guitarra como ninguém no largo ou aqueles rapazes com os seus cães que se apropriam da rua e pedem uns trocos a troco de malabarismos. Explico-lhe que o Chiado é muita coisa e é multi-muita-coisa, mas não é a mesma multi-muita-coisa que são o Martim Moniz ou a Mouraria.

A magia do Chiado não se esgota na magia no Chiado, sabes Andrea.

Os alemães utilizam uma palavra quase intraduzível para falar de nostalgia por algo ou alguém que não se sabe bem identificar: Sehnsucht. O Chiado é, sobretudo, aquilo que as pessoas que nele vivem e por ele passam se lembram que ele foi. Andrea percebe o que quero dizer: que o Chiado é todo ele Sehnsucht. Uma estranha comunhão de passados e de memórias.

“Amo-te Chiado” – lê ela numa placa. “Eu também, Andrea, eu também” – sorrio para ela. E falo-lhe da minha infância, da Benard, da Brasileira e do que me fascinava então no Chiado: os pastéis de nata, os babás, os caracóis, os guardanapos, os jesuítas, as parras, as tortas, os esquimós, os bolos de arroz, as bolas de berlim.

Caramba, como gosto desse Chiado! O Chiado é todo ele cheiro a bolos e a meias-de-leite. E, para mim, o Chiado – ao pé da antiga casa da minha avó – também é todo desenhos animados: o “Era Uma Vez a Vida”, os “Marretas”, os “Amigos do Gaspar”, a “Ana dos Cabelos Ruivos”, o “Verão Azul”, o Vasco Granja.

Já falta pouco, a sério.

5. Viagens, Linguística, Ângulos

38° 42′ 38″ N, 9° 8′ 32″ W são as coordenadas do Chiado. Na verdade, são das poucas coisas que temos por seguro sobre o Chiado. Há tantos clichés sobre o Chiado que até o dizer-se que há tantos clichés sobre o Chiado é um cliché.

“O que gostas tu no Chiado?”, pergunta-me Andrea. Do Chiado gosto de quando em vez e de vez em quando. Gosto que baste, mas não gosto que chegue. Gosto-lhe dos entretantos, das entrelinhas, dos entremeios e dos entrecantos. Às vezes, vezes demais, já não sei bem do que é que gosto no Chiado.

Mas o que mais gosto no Chiado, cara amiga, é a linguística. São as onomatopeias (os cricris, os toctocs e os cofcofs) e as interjeições (os ahs e ohs e uis). São as conjunções adversativas: os todavias, os poréns, os contudos, os mas, os no entantos, os ainda assins, os não obstantes. Ou melhor, os sin embargos e os nonethelesses das gentes do Chiado.

Pois, parece que já escrevi demais.

A nossa pequena viagem está quase no fim. Chegamos ao Kaffeehaus para um par de galões e uma fatia de Sachertorte. Sei quase tudo sobre ângulos nulos, agudos, rectos, obtusos, rasos, côncavos, completos, mas continuo sem encontrar um ângulo para o Chiado. Do outro lado da mesa, o mesmo desapontamento. Andrea diz-me – com algum embaraço – que ainda não percebe bem o que é o Chiado. Digo-lhe que não faz mal. Nós – que nele passamos quotidianamente – também não.

*: Uma reportagem muito pequena, bem tola e razoavelmente enfadonha sobre o chiado… para totós.


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