TXT. Manifestos Que Ninguém Compreende

18 09 2008

Tiago Espanto (Ago 2008)

As palmas voltam ao Chiado. Um ilusionista de fato vermelho, profissional, ocupa a área que é quase sempre dos freelancers da esmola. Faz desaparecer o normal corrupio de gente do Largo do Chiado. Os transeuntes deixam de o ser. Param para ver a magia de rua inserida no Festival Lisboa Mágica.

E as palmas voltam-se para o Chiado. Há uns séculos atrás, o poeta da sátira, António Ribeiro Chiado, também fazia magia: a de transformar as feições dos rostos de quem o ouvia. Ainda hoje se ri, curvado para o espectáculo.

Na periferia do público, a distribuir folhetos do festival, está Esteban Quito, que passeia com uma trela um cão imaginário. O mago ausenta-se por momentos do personagem para me explicar em galaico-português porque razão a magia de rua é quase sempre cómica:

Aqui as pessoas não estão sentadas, não sabem o que vêm ver. Temos de ser mais interactivos, mais clown.

É a tua primeira vez em Portugal?

Sim. Com este clima dá mais gosto…E a luz de Lisboa… É mágica.

É uma Lisboa mágica, repleta de luz, de brilho, de clichés. É simples tirar chavões da cartola: sob o pôr-do-sol magnífico que doura o Chiado, os turistas trocam sorrisos no paraíso da esplanada com uma cerveja refrescante. É já também um cliché fugir a correr dos clichés, mas apesar deste espaço usurpado ao verdadeiro e antigo Chiado se ter tornado num lugar-comum, ninguém daqui arreda pé. O Chiado é vulgar porque permite que as mais divergentes espécies humanas a ele se adaptem e nele se misturem: a gente gira e abundante, mártires da moda, passeia-se em frente à Basílica dos Mártires; os punks prendem o cão sozinho no meio da rua para que lhe deixem dinheiro; os turistas deliciados procuram os empregados; à parte disso, a impavidez de Álvaro de Campos tem em si todos os sonhos do mundo; ao longe, no Largo do Camões, senhoras apegadas aos banquinhos comentam quem passa na velhice da coscuvilhice.

Entretanto, entra em cena em alaridos bagaceiros o australiano Nick Nickolas, que deixa a assistência sem saber onde põe as bolas de ténis. Gargalhadas e reacções de espanto ecoam pelos prédios rejuvenescidos. No meio de tamanha chiadeira, o cão de Esteban Quito está irrequieto. Enquanto lhe faço festas para o tentar acalmar, pergunto ao seu dono se também consegue fazer desaparecer alguma coisa.

Eu faço desaparecer o carto, diz com ar brincalhão enquanto esfrega o indicador no polegar.

Que golpázios de ilusionismo haveriam, se os personagens do Chiado soubessem truques de magia para fazer desaparecer o que quisessem: a gente gira livrava-se das imperfeições estéticas, os cães dos punks faziam desaparecer os ossos dos talhos, os turistas os pickpockets, o Álvaro de Campos evaporava os turistas que assediam a sua brasileira favorita. O grupo de senhoras sentadas faz mesmo magia, fazendo desaparecer as cerimónias: “Isto agora é tudo uma cambada de paneleiros.

O BAIRRO, OCUPADO POR DESOCUPADOS

Se visse a maneira como as gentes do século XXI tratam as paredes do Bairro Alto, era provável que Almada Negreiros também lhes chamasse de uma “geração que nunca o foi, um coio d’indigentes, d’indignos e de cegos. Almada, que escreveu aos 23 anos o Manifesto Anti-Dantas, não entenderia como é possível que uns gatafunhos sejam a intervenção social de uns pseudos-Basquiat na pobre idade da puberdade. Para serem do Mundo, de escritores passaram a writers. Mas se querem falar ao mundo, porque não se fazem entender? As tags não têm significado. Parece que o objectivo é não fazer sentido. Ou então andam apenas a marcar território, como fazem os animais.

Afinal de quem são as paredes do Bairro? De quem é o Bairro? Os jovens embebedam-se, os turistas alimentam-se, as velhotas observam. Desde a varanda de sua casa, uma residente disparata com uma turista asiática que disparava sobre a rua: “Porque é que você não tira fotos à sua tia ou à sua avó?” A oriental percebe no cinzento em que a senhora vive e segue o seu caminho. É certo que vai inspirar fragrâncias a caril e a uma mistura de cerveja com algo parecido.

Em frente ao Restaurante Capotes Brancos, faço uma pergunta a uma senhora de avental que pede companhia ao fumo. Ela responde: Oi? Depois de duas tentativas, a comunicação é estabelecida:

Porque é que as paredes desta rua não estão pintadas com graffitis?

Ah, entendji, porquê estas as paredis não estão pinchádas? Porque tem polícia à paisâna aí na esquina todá noitxi. São nossos amigos e controlam tudo.

Contornando a autoridade, será que os graffiters encontrarão gozo na clandestinidade do acto? Porque produzem lixo? Ninguém encontra respostas. Nem o polícia. Diz para eu ter a bondade de perguntar, mas fala de forma esforçada.

É verdade que anda aí polícia à paisana?

É…

E porque não os põem nas ruas todas para acabar com os graffitis?

Não sei…

Também eles só devem pintar lá para altas horas de noite, não?

Eles lá pintam… Não têm nada para fazer…

Dá mais uns passos, junta-se aos restantes polícias, e diz: Manda lá grelhar as febras pá! Aquilo é barato, por 35 euros comemos todos. Bom apetite, senhores guardas.

E continua a ronda por este labirinto sem saída sóbria. Um senhor de bigode atrai clientela valendo-se da bobine exagerada da simpatia: “Hello, good evening, nice place, Portuguese music”. Lá dentro no restaurante alguém está a chorar. Na rua, durante o turno do cigarro, a mãe da Mara também canta o Fado: “Vê lá tu que a minha Mara recebeu uma carta das Finanças vinda do Porto para pagar 8000 e tal contos… Ela nem nunca foi ao Porto… E como é que eu pago? Eu vou com isto para a televisão.”

Com certeza que a mãe da Mara tem muito mais com que se preocupar do que em saber porque andam a ser pintadas as paredes do Bairro Alto. Mas tal como a informação na Internet, também no entulho de graffitis se pode encontrar tesouros que ajudem a explicar o fenómeno: Precários nos querem, rebeldes nos terão.


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